—  Bê-a-bá dos Investimentos
Até onde os juros vão cair?

Muitos têm nos perguntado: “Até onde os juros vão cair?” E essa pergunta vem sempre seguida de uma afirmação: “Pois minha rentabilidade está ficando cada vez pior com essa queda!”

Bom, vamos começar falando até onde os juros podem cair, para depois mostrar que a rentabilidade não foi comprometida e que essa queda na verdade é boa.

Vamos lá… mas antes de profetizar o piso dos juros, precisamos explicar por que eles sobem ou descem.

Existe uma turma no Banco Central (o COPOM: comitê de política monetária), que se reúne a cada 45 dias para decidir a tal da taxa Selic. Entre tantos dados que analisam, um dos que mais tem peso é a inflação. Ela precisa estar controlada, dentro da meta. Se estiver alta demais, essa turma opta por subir os juros (a taxa Selic).

Uma alta de juros significa que o dinheiro à disposição fica mais caro. De um carro a uma geladeira, tudo o que for comprado em prestações passa a custar mais. Consequentemente, as pessoas consomem menos e a lei máxima da oferta X demanda faz com que os preços caiam. Se tem menos pessoas comprando geladeiras, vai existir uma oferta maior de geladeiras e as lojas vão fazer intermináveis promoções para vender.

Promoção é sempre legal, né? Afinal, quem não quer pagar menos? Mas essa promoção surgiu porque o aumento do custo do dinheiro gerou menos consumo, que gerou mais oferta, que vai fazer as empresas diminuírem sua produção. Por fim, diminuir a produção significa demitir e isso não é nada legal.

Mas, por outro lado, se a inflação estiver controlada, baixar os juros é caminho natural. E daí ocorre o oposto de todo esse exemplo acima. O dinheiro fica mais barato, as pessoas consomem mais e as empresas contratam mais. É isso que está acontecendo no Brasil. Com uma inflação controlada, a taxa de juros tem caído sistematicamente e a economia está voltando a crescer.

Na última reunião, os juros caíram para 8,25% ao ano e analistas esperam novas quedas, com estimativas que a taxa encerre o ano entre 7% e 8%. Até o Presidente da República tem seu palpite, que é os 7,5%. Pelo comunicado do COPOM, sem dúvida novos cortes virão, mas talvez com menos velocidade. Por isso, é muito provável que o palpite do Temer esteja certo.

Se eles vão continuar caindo ano que vem? Muito provável! Mas em ritmo cada vez menor.  Estamos longe de ser os Estados Unidos, com taxa perto de zero, precisamos pagar juros para atrair investidores, mas comparando e fazendo uma média com nossos “colegas” dos BRICS (China, Russia, Índia e África do Sul), nossa Selic poderia ir para 7% ou levemente abaixo.

Esse parâmetro dos juros, a Selic, não serve apenas para financiar uma geladeira pagando mais ou menos nas prestações. De fato, isso baliza também os investimentos. Os títulos do tesouro, os CDBs, CRIs, CRAs, debêntures e por aí vai. Por isso, a queda dos juros traz consigo a reclamação de que os rendimentos estão menores.

Mas será que estão mesmo?

Com uma taxa de juro a 8% e uma inflação em 3,5%, temos um juro real de 4,5%. Com taxa de juro a 14,5% e inflação de 10,5% temos juro real de 4%. Por isso nos enganamos ao olhar somente a taxa de juros.

A inflação é um bicho invisível, mas que está lá, comendo o poder de compra do nosso dinheiro.

Por isso o correto é olhar o rendimento acima da inflação, e olhando isso, ainda somos um dos países que mais pagam juro real no mundo. E novamente vencemos nossos colegas dos BRICS. Por exemplo, a China tem juro real de 2% e na Índia é abaixo de 1%.

Quer ler mais sobre inflação? Veja esse post.

E por que eu mencionei no início do texto que essa queda é boa?

Vamos reforçar: juro pra baixo, significa mais dinheiro disponível, que significa mais demanda, que significa mais empregos, mais impostos pagos, mais investimento em educação, segurança, saúde, uma sociedade mais rica e com muito mais oportunidades. E isso tudo reflete também nos investimentos. As empresas com ações em bolsa vão se valorizar, vão distribuir mais lucros e se você tiver elas nos seus objetivos de longo prazo, vai ver seu patrimônio se valorizar.

Por isso, não torça o nariz para a queda de juros, comemore. Ela pode fazer um bem tremendo para nosso país e também para os seus investimentos.

(Photo by Patrick Fore on Unsplash)