—  Organizando Finanças Pessoais
Falar sobre dinheiro não é feio

Por Luiz Felipe Weber, engenheiro de produção e investidor no Warren

Falar de dinheiro, no Brasil, pode-se considerar um tabu. Começa quando teu pai te ensina, ainda quando pequeno, que perguntar quanto uma pessoa ganha ou tem de dinheiro é muito deselegante. Quem tem pouco não fala por vergonha, quem tem muito não fala por discrição. Falar de dinheiro é delicado, assemelha-se a falar de sexo com seus filhos.

A criançada chega na escola, passa incontáveis anos aprendendo a genética e a reprodução de uma pteridófita, preocupadas se vão se lembrar da função do zigoto na hora da prova. Estudam infinitas horas para aprender a relação da tangente com o seno e o cosseno, aprendem como Pitágoras, em centenas de anos antes de Cristo, inventou seu amável teorema. Mas ninguém, sequer uma viva alma em todos esses anos, ensina as crianças sobre o que mais assombra as pessoas no decorrer da vida: dinheiro. Não aprendem o que é um juros composto, o que é poupança, inflação, taxa de juros, ativo, passivo e tantas outras coisas que são tão necessárias um cidadão saber.

Na grande parte dos casos, não somos motivados na infância a conseguir dinheiro para comprar tal brinquedo. Em geral, ouvimos algo como: “isso não é para nós, isso é para gente rica, nós não somos ricos, filho”. Com poucos anos, já ancoramos no nosso modo de pensar que somos desprovidos de dinheiro e precisamos nos contentar com o que temos. Tampouco somos ensinados a lidar com o dinheiro, guardar, poupar e quem dirá investir. O retrato geral da sociedade é ainda mais alarmante ao passo que falar de dinheiro é a mesma coisa que falar de dívida.

No Brasil, a verdade é que a roda gira na contramão da liberdade financeira. Um país onde o trabalhador força a demissão com o intuito de receber o fundo de garantia e poder quitar as dívidas, me desencoraja em dizer que tem salvação. Somado a isso, ainda temos o querido seguro desemprego, que era para ser um suporte temporário, mas virou objeto de desejo dos empregados por ser dinheiro fácil. Ainda temos muito a aprender sobre consciência financeira no Brasil.

Minha jornada financeira
Ultimamente, com o início da minha jornada profissional, por meio dos meus projetos de melhoria nas empresas que trabalho, pude poupar alguns reais. Nesses últimos meses consegui montar minha reserva de emergência, iniciar minha reserva financeira para a aposentadoria, contratar meu primeiro estagiário e fazer alguns investimentos para o futuro. Mas isso, com certeza, só foi possível com educação financeira.

Não sei dizer ao certo de onde, mas desde criança sempre fui meio neurótico com o meu dinheiro. Meu pai nas primeiras séries do fundamental me dava 5 reais para comprar um prensado inteiro e uma lata de Coca-cola na cantina, só que o mão de vaca aqui comprava meio prensado e trocava a lata por um copo de Coca, o resto eu guardava. Aos poucos, eu tinha dinheiro para comprar um brinquedo, um jogo de vídeo-game ou o álbum da Copa do Mundo. E assim foi: brinquedos e álbum da Copa com o que sobrava da merenda, bola de futebol com o que sobrava das pequenas mesadas, viagens com o que sobrava das minhas bolsas de estagiário e hoje alguns investimentos com o que poupo dos meus projetos. Minha vontade de alcançar algo maior sempre foi maior do que um prensado inteiro e uma lata de Coca.

O namoro com as finanças não é de hoje, mas como diz um amigo meu: “leia de tudo um pouco, mas leia mais sobre o que tu gostas”. Não é por menos, livros de finanças sempre estiveram na minha cabeceira. E com o tempo, o assunto se tornou um pouco mais natural e interessante para mim.

A woman showing off her apple watch and the amazing display on the watch screen

A minha consciência financeira construiu-se a partir de alguns fatores: disciplina, controle emocional, estudo, planejamento e, claro, vontade de enriquecer.

1.Disciplina
Talvez um dos fatores mais difíceis. Você sabe quanto é seu custo de vida mensal? Quanto você consegue poupar todos os meses? Ou pior, você sabe quantos meses você conseguiria sobreviver caso perdesse seu emprego amanhã, vivendo somente do dinheiro que você tem guardado?

Essas questões normalmente são nebulosas para nós. O dinheiro entra no início do mês, sai nas contas a pagar, e o que sobra ora gastamos no crédito, ora no dinheiro, o mês acaba e sequer paramos para analisar o extrato. Disciplina é colocar no papel, é traçar um orçamento pessoal condizente com suas receitas e manter suas despesas de maneira saudável. É saber quantos meses minha reserva de emergência me mantém.

2.Controle emocional
Disciplina é mais técnico, é manter suas contas em dia, ter clareza sobre os gastos e os rendimentos, já o controle emocional é mais subjetivo. Precisamos realmente do carro que temos? Da quantidade de roupas que enchem nossos guarda-roupas? Precisamos de uma casa tão grande?

Esses dias comentei que queria trocar meu carro por um menor, mais econômico, e a reação foi: “vish, mas a coisa está tão feia assim!?”. Normalmente arcamos com gastos muito maiores do que deveríamos arcar. E o pior que fizemos isso conscientemente na ânsia de nos mostrarmos financeiramente bem sucedido na sociedade.

O resultado de toda essa festa financeira que fizemos todos os meses é a conhecida frase: “nossa, estou definitivamente precisando ganhar mais!”. Meu amigo, desculpe informar, mas o que você precisa é gastar menos! Quem aqui não quer ganhar mais?

3.Estudo
Aqui mora a parte onde julgo ser mais fácil de iniciar toda essa caminhada. O estudo é sempre o primeiro passo. Você prefere fazer uma prova ao qual você estudou e se preparou ou fazer uma prova surpresa onde você não conseguiu sequer abrir o caderno?

Se você ainda paga taxas abusivas de anuidade ou então aceita sugestões do seu gerente de conta para qualquer renda fixa que ele lhe oferece, saiba que existem inúmeras outras soluções sem taxas, com rentabilidade muito maior e cartões sem anuidade! Sim, já existe tudo isso. Para você que ainda guarda seu dinheiro na poupança, fica aqui uma célebre frase de Tito Gusmão, um dos maiores financeiros do Brasil: “a poupança é uma merda!”. Entenda o porquê neste vídeo do Me Poupe.

4.Planejamento
Aqui é onde a coisa começa a ficar interessante. Quanto mais planejado você for, melhores serão os rendimentos que você terá ou então menores as dívidas que você criará. O porquê é simples, quando você traça objetivos com prazo, você pode aplicar esse dinheiro em investimentos muito melhores do que simplesmente na poupança. Ou então, se você planeja uma compra com antecedência, você consegue juntar o dinheiro antes e barganhar ótimos descontos a vista.

Finanças pessoais
Se você irá viajar daqui a 12 meses, guarde esse dinheiro em uma aplicação de 12 meses, muito provavelmente os rendimentos dessa aplicação lhe darão uma diária a mais no hotel ou um dia a mais de passeio. Isso vale para sua casa própria, seu carro, seu negócio ou então uma reforma.

Utilizar a consciência financeira não é tão difícil
Sempre achei o carro um recurso extremamente subutilizado. Em uma aula esses dias um professor comentou que cerca de 96% do tempo, nosso carro fica parado, sem utilidade alguma. No momento em que você tira o carro da concessionária, ele automaticamente vale cerca de 15% a menos. Além disso, as despesas com um veículo pessoal normalmente são muito maiores que qualquer outra forma de transporte, seja táxi, Uber, ônibus, bicicleta e obviamente a pé. Grande parte das minhas despesas eram provenientes do combustível, estacionamento, IPVA e seguro do automóvel.

Visto todo esse contexto triste, resolvi mudar um pouco esse paradigma. Há algumas semanas disponibilizei meu carro para um amigo trabalhar como Uber. O resultado é super bacana, meu amigo está super feliz com a renda extra e com todos elogios pelo atendimento. Meu carro deixou de ser um passivo e passou a ser um ativo, agora além de cobrir todos meus gastos com transporte ainda consigo abater meu IPVA e seguro.

Começar a pensar mais conscientemente sobre suas finanças é um importante passo para sua liberdade. Pessoas com lastro financeiro normalmente possuem mais segurança, independência e qualidade de vida. Riqueza não pode ser confundido com status, ostentação e esbanjo. Muitos vivem uma vida desregrada financeiramente quando novo e se permitem viver condições subumanas quando velhos.

Pensar em enriquecer não é ganância, é se permitir viver uma vida com qualidade e garantir um futuro digno.

Photo by Green Chameleon / Unsplash