—  Organizando Finanças Pessoais
Quantas horas de vida custa uma bota?

Gastamos dinheiro com coisas que não precisamos porque, no fundo, não sabemos quanto custou para ganhá-lo (o dinheiro!). Ou não queremos saber. Ou esquecemos momentaneamente para diminuir a culpa.

Milhares de anos atrás, antes da primeira moeda ser cunhada (aconteceu na Turquia em 600 a.C.), as pessoas trocavam o excesso do seu trabalho por outras coisas que lhe faltavam, o chamado escambo. O pescador pegou mais peixe que podia comer, não aguentava mais sashimi. O agricultor não aguentava mais comer só arroz e não via a hora de comer um peixinho. Os dois trocaram e assim nasceu o sushi (a parte do sushi é mentira, mas podia ter sido verdade!) 😀

Todos ouvimos sobre o escambo de alguma forma em nossas aulas de história, mas naquela época era muito chato. Mas…e se entender sobre escambo ajudar você a cuidar melhor do dinheiro hoje? Falamos um pouco sobre isso aqui.

Escambo indireto

Toda vez que você compra algo, um par de sapatos, uma peça de roupa, um jogo de videogame, você está, de certa forma, fazendo um escambo, uma troca. Indireta, mas é uma troca. Você troca tempo trabalhando para ter algo para calçar, vestir, um pouco de diversão.

Como é muito difícil fazer um sapato, uma calça e mais difícil ainda um jogo, é mais fácil você cuidar dos dentes de seus pacientes (se você for dentista), dar aula de inglês ou fazer imposto de renda para os outros que fabricar tudo que você precisa para satisfazer suas necessidades. E isso é ótimo! Tudo isso nos permite especializar e focar no que realmente somos bons e gostamos de fazer, sem ter que andar descalço por aí! 🙂

O problema começa quando perdemos a noção de quantos dentes tivemos que “consertar” para comprar um bendito sapato. Quantas horas (ou dias) tivemos que ficar em sala de aula e corrigir provas para comprar uma calça. Quantas declarações de imposto de renda tivemos que fazer para comprar um jogo do PlayStation. O dinheiro digital (cartões de crédito em especial) tem tornado o valor do dinheiro ainda mais intangível, o que só dificulta as coisas.

Dinheiro = Trabalho = Tempo de Vida

Toda vez que compramos algo, trocamos tempo de trabalho ou tempo de vida por aquele bem que estamos adquirindo. Como funciona na prática?

Juliana é dentista e ganha, em média, R$ 4000/mês líquidos, depois de pagar o aluguel do consultório, equipamento e auxiliar. Como ela faz um curso de especialização todo ano, guarda R$ 500/mês para isso, o que a deixa com R$ 3500/mês.

Ela trabalha muito, cerca de 50h/semana, ou 200h/mês. Numa conta simples, calculamos, portanto, quanto a Juliana ganha por hora de trabalho:

200h = R$ 3500
1h = x

Com isso temos que x = R$ 17,50

A bota

Juliana, então, passa na frente de uma loja e vê uma bela bota de caminhada para fazer trilhas. Ela adora caminhar. Ela até já tem uma, não precisaria de uma nova, mas aquela bota é tão bonita e ela passa a se convencer que ela merece, que sua bota atual está um pouco gasta. A bota custa R$ 400. Não parece tanto. Mas… quanto custa isso em tempo de trabalho? Tempo de vida? É só dividir o custo da bota pelo valor da hora.

1h = R$ 17,50
x = R$ 400,00

x= 22,8h

Ou seja, a Juliana tem que trabalhar 22,8h, quase metade de uma semana, para pagar a bota. Teoricamente, se ela decidisse não comprar a bota ela poderia fechar o consultório por meia semana e ficar caminhando onde quisesse com a sua bota antiga.

E tudo fica ainda mais interessante quando você pensa que você pode decidir não comprar algo e investir no futuro. Esses R$ 400, se investidos mês a mês, podem render uma boa caminhada em um lugar que a Juliana nunca pensou visitar, seja na Chapada Diamantina ou na Patagônia.

O que é melhor?

O que é melhor? 22,8h caminhando com a bota velha ou 22,8h no consultório obturando dentes para comprar uma bota? Ninguém além da Juliana pode dizer! É uma decisão 100% dela e, independente de qual seja, ninguém pode dizer que está certo ou errado. O importante é que esta decisão seja feita com consciência e não por impulso, senão a Juliana vai estar trancada no consultório com uma bota nova no armário reclamando que poderia estar fazendo caminhada (ou fazendo caminhada com uma bota velha, reclamando que podia estar com uma bota nova). No momento que nos apropriamos desta decisão, não existe espaço para reclamação, nos tornamos donos do nosso destino, somos mais felizes.

Cuidar do seu dinheiro e investir bem o que sobra é tomar as rédeas do próprio tempo e da própria vida.

E você, quantas horas de vida pensa em gastar com a próxima compra?

fale com warren

Por Cristiano Wuerzius. Cris é casado, tem duas filhas e um monte de conta para pagar (pouquíssimas para receber). Ajuda com estratégia de crescimento no Warren e escreve bem menos do que deveria no blog.
(Photo By Andrew Neel)